Cronicas da Maré

Óculos sobre livro

09 Mar, 2026

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Um aviso metafísico

Em 2016, perdi uma tia para o câncer. Nós a chamávamos de tia Santa — minha avó costumava chamá-la assim desde sempre. Estava no trabalho quando recebi a notícia.

​— Foi de repente — disseram.

​​Não chorei na hora. Recebi a notícia e disse que iria ao velório. Quando cheguei à casa, já preparada para um último adeus, vi o caixão aberto com seu corpo velado para todos os vizinhos fazerem suas orações e se despedirem. Abracei meus tios. A lágrima desceu. Fiquei ali do lado, contemplando e gravando aquela imagem como um altar de despedida. Havia quase dois anos que não a via.

​​Sendo bem honesto, a distância não me magoou. Cada um tem sua vida, mas um adeus forçado para o "nunca mais" é algo irreversível.

​​Ela estava ali deitada, frágil e pálida.

​​— Fizeram um bom trabalho — disse a mim mesmo.

​​Orações feitas e despedidas dadas, seguimos em procissão.

​Nós a sepultamos.

​Foi um adeus digno.

​​A história dela teve momentos difíceis e bem desafiadores. Talvez em outro momento eu possa compartilhar. Quem sabe um dia.

​​Quase uma semana depois, durmo em minha casa e, em sonho, acordo na casa do meu pai. A fumaça da panela de pressão e o cheiro da comida fumegante no fogão me fizeram perguntar sobre o almoço. A luz que pairava pela porta da cozinha era tênue e convidativa, como as primeiras luzes do amanhecer.

​​Até que, num estalo de memória, indago à minha madrasta:

​​— Como está a tia Santa? Ela tá bem? Queria muito falar com ela.

​​— Você não sabe? Ela está te esperando lá na mesa do quintal para tomar café com um bolo que ela fez.

​​— Menina, pois vou lá que eu estou morrendo de fome.

​​Passei pela porta. Chegando ao fundo do quintal, puxo a cadeira e me sento. Tia Santa sai sorridente trazendo um bolo, e dou um abraço forte nela. Ela me serve café, cujo aroma entra de forma intensa pelas narinas, me fazendo apreciar cada segundo daquele momento.

​​Depois de conversarmos amenidades, ela disse que precisava falar muito sério comigo:

​​— Anthuan, eu preciso te dizer algo para te preparar. Neste ano, muitas coisas ruins vão acontecer com você. E você vai precisar ser muito forte para enfrentar tudo o que virá.

​​— O que vai acontecer, tia Santa?

​​— Não me é permitido falar... mas queria me despedir.

​​— A senhora vai viajar?

​​— Vou.

​​Ela me deu outro abraço. Um abraço tão caloroso que senti meu corpo inteiro esquentar. Como quando estamos com muito frio à noite e alguém nos agasalha sem sabermos. Aquele quentinho de quando tomamos um chocolate quente no inverno. Senti-me acolhido e amado.

​​De repente, aquele mundo colapsou. Lembrei que ela havia falecido... e acordei.

​​Levantei como se tivesse despertado de um sono de mil sonhos. Falei com a minha mãe a respeito. Esperamos.

​​No mesmo mês, tive vários problemas de saúde. Uma infecção estomacal muito forte que durou semanas. Em uma das visitas à Unidade de Atendimento contraí catapora com 24 anos. Tive febres avassaladoras, delírios com meu gato fujão, fiquei com a fisionomia monstruosa repleto de pústulas pelo rosto e corpo. Lembro de ficar de quarentena por uns 15 dias até poder melhorar. Voltando ao trabalho fui demitido.

​Mal me recuperei, tive uma crise de apendicite, com o apêndice já infeccionando. Passei 7 dias internado em um mini hospital, o clima era de guerra. Fiquei numa ala com pessoas sofrendo e morrendo ao meu lado. O calor insuportável e um ventilador apenas. Foi um pesadelo. Foi um tempo que fiquei só, sem ninguém me acompanhando.

​Minha mãe estava desempregada e ainda me recuperando da cirurgia, passamos maus bocados por um bom tempo e, no início de 2017, fiz meu transplante de córnea e as coisas foram voltando pro seu lugar.

​​Mas a todo momento eu recordava as palavras que a tia Santa havia proferido, o que me fazia sempre lembrar dela.

​​Aquela fase passou, mas foram as palavras dela que me deram forças para continuar, na certeza de que tudo aquilo iria acabar.

​Não sou religioso e talvez nem acredite na espiritualidade como acho que um dia acreditei, mas tenho certeza de que aquele foi o presente que ela me deixou:

​​Um aviso metafísico.

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